ㅤSempre fui sentimental e nunca levei adiante relações em que não estivesse emocionalmente envolvida, e por mais que eu pareça ser durona, é apenas fachada. Só eu sei o quanto já sonhei em ser uma princesa resgatada da torre de um castelo.

Eu sabia fazer pipa e hoje não sei mais. Duvido que se hoje pegasse uma bola de gude conseguisse equilibrá-la na dobra do dedo indicador sobre a unha do polegar, quanto mais jogá-la com a precisão que tinha quando era garoto. Outra coisa: acabo de procurar no dicionário, pela primeira vez, o significado da palavra “gude”. Quando era garoto nunca pensei nisso, eu sabia o que era gude. Gude era gude. Juntando-se as duas mãos de um determinado jeito, com os polegares para dentro, e assoprando pelo buraquinho, tirava-se um silvo bonito que inclusive variava de tom conforme o posicionamento das mãos. Hoje não sei mais que jeito é esse. Eu sabia a fórmula de fazer cola caseira. Algo envolvendo farinha e água e muita confusão na cozinha, de onde éramos expulsos sob ameaças. Hoje não sei mais. A gente começava a contar depois de ver um relâmpago e o número a que chegasse quando ouvia a trovoada, multiplicado por outro número, dava a distância exata do relâmpago. Não me lembro mais dos números. Ainda no terreno dos sons: tinha uma folha que a gente dobrava e, se ela rachasse de um certo jeito, dava um razoável “pistom” em miniatura. Nunca mais encontrei a tal folha. E espremendo-se a mão entre o braço e o corpo, claro, tinha-se o chamado trombone axilar, que muito perturbava os mais velhos. Não consigo mais tirar o mesmo som. É verdade que não tenho tentado com muito empenho, ainda mais com o país na situação em que está. Lembro o orgulho com que consegui, pela primeira vez, cuspir corretamente pelo espaço adequado entre os dentes de cima e a ponta da língua de modo que o cuspe ganhasse distância e pudesse ser mirado. Com prática, conseguia-se controlar a trajetória elíptica da cusparada com uma mínima margem de erro. Era puro instinto. Hoje o mesmo feito requereria complicados cálculos de balística, e eu provavelmente só acertaria a frente da minha camisa. Outra habilidade perdida. Na verdade, deve-se revisar aquela antiga frase. É vivendo e desaprendendo. Não falo daquelas coisas que deixamos de fazer porque não temos mais as condições físicas e a coragem de antigamente, como subir em bonde andando – mesmo porque não há mais bondes andando. Falo da sabedoria desperdiçada, das artes que nos abandonaram. Algumas até úteis. Quem nunca desejou ainda ter o cuspe certeiro de garoto para acertar em algum alvo contemporâneo, bem no olho, e depois sair correndo? Eu já.

Luís Fernando Veríssimo  
Você me tratou mal, você fez com que eu não soubesse mais quem eu sou, que ódio, você fez com que eu me afogasse. Você me deixou de lado, fez com que eu me sentisse esquecível. Você mentiu pra mim. E me usou pra ver se esquecia outra pessoa. Você me magoou demais, seu otário. Você foi frio, seco, áspero, você fez com que eu baixasse da internet músicas de Sandy e Júnior. Tem noção do que é isso? Sabe o que dá mais raiva? Sei que você está bem. E sorrindo. E vivendo a porra da sua vida numa boa, sem pensar em mim. Claro, sou esquecível, não é mesmo? Você sequer pensou em mim, no que eu sentia, em como eu me sentia. Ai, que raiva de você! Meu coração está doendo. E eu chorei tantas vezes, muitas vezes, um quadrilhão de vezes e você nunca, em nenhum momento esteve aqui pra secar as minhas lágrimas e juntar os meus pedaços do chão. Você nem me trouxe um ouro branco. Você nem me deu um beijo. Você me empurrou da escada. Me deu um pontapé e nem virou pra perguntar se doeu. Você é mau. Você me trouxe um gosto estranho, aquele sabor que eu queria nunca mais lembrar: rejeição. E você não foi leal. E nem meu amigo. Eu cheguei a pensar que fôssemos amigos. Eu achei que a gente até podia ser um casal. E até usar aqueles colares bregas com as iniciais do nome do outro. Sei, eu estava doente. É, doente de amor mesmo, tô sabendo. E agora não tem ninguém do meu lado, nem você e nem ninguém. E nenhuma lembrança, nem rastro, nem nada de você. Que raiva de mim. E que saudade é essa de você? Você não sabe amar. Você não sabe o que é amor e respeito. Você não é normal. Você gosta de quem te maltrata. Amor não é jogo, não é labirinto, não é loucura, não é isso que ela diz que sente por você. Você está atormentando os meus pensamentos. Que raiva de você. E que saudade é essa de mim? Você não vale nada, é um otário que não presta e é um babaca ridículo que me deixou escapar. O problema é que você não me deixou escapar, você quis que eu escapasse naquele dia, aliás, naquela noite em que você disse que estava saindo da minha vida pra sempre. E você nem voltou. Você nem ligou. Nem mandou mensagem. Nem e-mail. Nem scrap. Nem mesmo um “sinto saudade”. Você saiu, bateu a porta e nunca mais abriu, nem espiou pela frestinha. Isso prova que eu sou mesmo mais uma na sua vida. E você disse que não queria me perder. E fez tudo errado, agiu como se quisesse. Eu te procurei e você fingiu que nem viu. Eu odeio você. Odeio. Mas penso em você quando toca aquela música, quando penso naquele filme, quando tô alegre, triste, feliz, deprimida, chorando, rindo. Penso nas coisas que eu queria contar e dividir com você. Penso em como as coisas eram e como podiam, um dia, ser. E eu sei que antes de dormir vou pensar em você e amanhã vou acordar com você no pensamento. Posso até sonhar com você. E vou tomar café com você na cabeça, caralho, você não podia ter ido embora assim. Seu filho da puta! Tô chorando, tá satisfeito? Está doendo, sabia?

Clarissa Corrêa.    (via segredou)
Eu acredito nas casualidades, nos encontros, nas passagens. Nas conversas que temos, nas músicas que cantamos. No que somos e nunca deixamos de ser. Eu acredito que podemos ser muito fortes, muito mais. Podemos ser como todos, e o tudo pode ser capaz. Eu quero suas mãos, suas ideias e defeitos, que me ensine o seu jeito, enquanto aprende o meu. Quero que faça sentido, que seja proibido, mas que entre nós todos não exista lei. Quero ser tudo que tem graça, que tem gosto e da pra sentir. Quero o que mais me da vontade, e quero vontade pra prosseguir. Quero voar, mergulhar, morrer e matar a vontade de querer.

Esteban Tavares.
Estou bem, só que não tenho apetite. Meus nervos costumam me dominar, especialmente aos domingos; é quando me sinto péssima. A atmosfera é sufocante e pesada como chumbo. Lá fora não se ouve um pássaro, e um silêncio mortal e opressivo paira sobre a casa e se gruda em mim, como se fosse me arrastar para as regiões mais profundas dos abismos subterrâneos. Em tempos assim, papai, mamãe e Margot não têm a menor importância para mim. Ando de cômodo em cômodo, subo e desço escadas e me sinto um pássaro de asas cortadas, que fica se atirando contra as barras da gaiola. “Me deixem sair para onde existem ar puro e risos!”, grita uma voz dentro de mim. Nem mesmo me incomodo mais em responder, só fico deitada no divã. O sono faz o silêncio e o medo terrível irem embora mais depressa, ajuda a passar o tempo, já que é impossível matá-lo.

O Diário de Anne Frank.   
Eu sempre sonhei que alguém se apaixonasse pelo meu sorriso torto, alguém que precise ouvir minha voz antes de pegar no sono. Alguém cuja a palma da mão, eu terei decorado cada detalhe e cravado a marca dos seus dedos entrelaçados. Um alguém fará você chorar e vice-versa, porém, terá um abraço que acolherá todos os erros. Alguém que talvez te odeie um dia e ame no outro. Alguém que sinta tua falta a cada segundo que passa. Alguém que realmente goste de você e faria tudo só para te ver feliz, dando a própria felicidade em troca da tua. Eu quero alguém que me fale que eu sou linda e não “gostosa” isso me ofende, claro que não vou ficar de cara feia se me chamarem de gostosa, mais eu gostaria de mas respeito comigo, não só comigo. Com as mulheres, elas são únicas com os seus defeitos, perfeitas do seu jeito estranho, mas são perfeitas. Mais, não vamos mudar de assunto. Já sorri de mil formas, era o que eu precisava: Amor. Era o que você tinha. E tudo sempre veio acompanhado dos meus pelos arrepiados, do meu coração batendo forte e da minha distração quando você falava muito. Foi assim que eu soube o quanto isso era forte. Aliás, o quanto isso é forte. Talvez você mude de país e de jeito. Talvez a minha loucura te afaste. Mais se for verdadeiro não importa a distancia, o que importa é que meu coração é teu e o teu é meu. Eu sei que posso dificultar as vezes de alguém se aproximar, mais é só medo de ser magoada novamente. Eu acho que já sofri o bastante até hoje e espero não sofrer mais. É impossível, eu sei. Mas pelo menos agora não, eu me sinto perdida dentro de mim. Eu não sei o que sentir e quando sentir, eu sou como uma bomba de sentimentos, eles vem na mesma horas e é angustiante. Confesso que fico olhando o religo para ver se as horas passam só para poder ver você passando pela minha rua, com ela. Não importa que esteja com ela, o que importa é que você está ali. Pra falar verdade, às vezes minto tentando ser metade do inteiro que eu sinto, pra dizer as vezes que às vezes não digo. Sou capaz de fazer da minha briga meu abrigo. Tanto faz não satisfaz o que preciso. Além do mais, quem busca nunca é indeciso. Eu busquei quem sou, você mostrou que eu não sou sozinha nesse mundo. Cuida de mim enquanto não esqueço de você. Cuida de mim enquanto finjo que estou bem comigo mesma. Só fica aqui, me fazendo cafuné. Em quando eu entro em prantos por ter te deixado partir meu coração. Eu só estou fazendo isso, porque eu ainda não quero dizer adeus. Você foi muito importante e ainda continuara sendo muito importante na minha vida. Mas não vá ainda, espere mais um pouco. Deixe eu me acostumar com a ideia de acordar e não te ver do meu lado, sair de noite e só voltar no dia seguinte e você me esperando sentado no portão com aquele olhar triste, só me deixe as boas lembranças. Leve as ruins com você, mais espere um pouco. Ainda quero você na minha vida, por mas que tenha me machucado, não vá. Mas, eu não consigo. Não consigo ficar brava contigo, não consigo virar as costas para você e partir. É doloroso demais. Fica só mais um pouquinho, por mim? Fica vai, não custa nada.

Autor Desconhecido. 
Eu não sou fácil de conviver. A primeira coisa que me veio em mente no primeiro encontro. Devia tê-lo avisado. Acho que não estava a procura de adrenalina e ele mal sabe a montanha russa em que se meteu. Não tenho a habilidade de calar, sou tipo aquela boneca com defeito que você no inicio procura onde desliga, procura a pilha, e quando nada dá certo dá vontade de tacar na parede. A verdade é que tenho a boca maior que qualquer outra parte do meu corpo, exceto meu coração. Falo falo falo, o que devo e até o que não devo falar. Encho o saco, sou chata, mas não levo desconfiança ou desaforo pra casa. Se fosse avisá-lo de todos os meus defeitos, diria também que amo demais… demais da conta mesmo, daquele jeito que pede todas as atenções, suga de você todos os carinhos, desejos e pensamentos. Mau humor matinal? isso pra mim é lenda, meu mau humor não tem hora, aprenda a conviver com ele e com milhares de outras coisas que com o tempo descobrirá. Sou perceptiva, persuasiva e perfeccionista. Mimada, ciumenta, implicante e irritante… muito irritante. Faço a limpa na tua mente e no teu coração… esqueci de mencionar que sou espaçosa e possessiva? é. Se eu disser que sim, é sim. Se eu disser que não, preste atenção, pode ser um sim. Mas mesmo com um milhão de avisos alarmando em minha cabeça, disse apenas ‘Prazer em conhecê-lo’. Deixando-o achar que também seria um prazer me conhecer.

Anônimo. 
Vou ouvir musicas tristes. Chorar. Cantar. Esgotar o vestígio de esperança que existe em mim. Secarei minhas lagrimas. Lembrarei que você não veio. O desespero irá me consumir. Quando o Sol surgir com seu brilho infernal, desejarei ter virado pó. Mas continuarei vivendo. Meus sentimentos por você ainda serão os mesmos. Porém mais um pedaço de mim terá morrido. Não serei mais tão inocente. Contudo, ainda vou te amar desesperadamente. Tenho certeza que outras partes de mim secarão. Mas nunca deixarei de acreditar no seu sorriso.

IsaD 
Nasci dura, heroica, solitária e em pé. E encontrei meu contraponto na paisagem sem pitoresco e sem beleza. A feiura é o meu estandarte de guerra. Eu amo o feio com um amor de igual para igual. E desafio a morte. Eu – eu sou a minha própria morte. E ninguém vai mais longe. O que há de bárbaro em mim procura o bárbaro e cruel fora de mim. Vejo em claros e escuros os rostos das pessoas que vacilam às chamas da fogueira. Sou uma árvore que arde com duro prazer. Só uma doçura me possui: a conivência com o mundo. Eu amo a minha cruz, a que doloridamente carrego. É o mínimo que posso fazer de minha vida: aceitar comiseravelmente o sacrifício da noite.

Clarice Lispector.  (via segredou)
Não foi amor, foi crise de exagero do meu cérebro. E crise a gente cura com psicólogo, não com drama barato em rede social.

Ana Mercy.
Não tentes converter o meu real ao teu dólar desvalorizado e fadado a estagnação, deixe-o quieto em seu lugar. Tu és criminoso por incentivar o consumo desenfreado, o que fará com que teus bolos fiquem pensados e tu tenhas que sonegar suas reais intenções. Diga-me, como tu consegues colocar teu sono em dia? Responda-me, a fácil ignorar os grilos que gritam em teus ouvidos? Consciência? Não, esta fora desviada de seu caminho há tempos. A tua língua solta, conspira contra as vendas de abraços rasos. Que pena, que vergonha, lhe reconheceram com impostor, corra ou a policia federal baterá em sua porta, meu caro. Despeje o ouro em privadas e bidês, livre-se de todas as provas que podem lhe manchar. Compre e silencie as bocas que podem te condenar. No laico Estado que a tua mente se encontra escolha a crença que lhe cobrará menos e lhe trará mais benefícios, apenas a escolha de um bom planejador. As linhas no cardiograma aumentam só quando atrai inúmeros sugadores de energia, tendenciosos e mal intencionadas, não sabe com quem podes se abrir sem que isso se transforme em uma futura arma nuclear contra seu mundo. Por mais que teu sorriso esteja à amostra, todos podem ver o ranger de seus dentes esbranquiçados que logo serão gastos, não tente dormir no fim do mundo, abra os olhos e não jogues a toalha antes do fim da rodada. As investigadoras visitas deixam tua acompanhante aflita, afinal ela não nascera para a vida de tutora de um lar, festas são seu único patamar, folhagens de ouro e folhas de louro dão ritmo do bolero da vez. Enfeita-se a cara, os moveis e tire para fora as louças que nunca foram usadas, angarie a admiração destes seres inusitados. Em tons atrevidos todos procuram dissecar tua intimidade, “quanto ganhas?”, “tu precisas ter um herdeiro para todo este teu sucesso”, “olhe bem o que vais comprar, não vai ceder teu nome a falência”. Olhos voltados ao orfanato de seu coração, lá residem mais de mil órfãos, todos que lhe destrataram e queriam aproveitar-se apenas de seu corpo. Falando órfãos, e os teus lábios acharam outro par para unir-se com você? Dê o domínio de ti aos teus pés, eles sabem bem aonde ir, saia da posição de xeque e reverta o placar do jogo com toda a tua astúcia que a vida lhe ensinou. Velhos vinhos, atiçam e convertem ateus a causas menos favoráveis. Amantes confidentes são endeusados como a nova droga a se consumir, quem me garante que a escolha não dará errado? É sobre isso que você se desfalece para seu vício, apostar em tuas melhores jogadas e torcer com fervor para que suor seque-se antes que chegue aos teus ossos.

Pretexto Sobre O Comodismo Que És Instaurado Com O Doce Sucesso, Pierrot Ruivo 
Espante a escuridão, cante com toda sua voz. Ame sem medo no coração. Sinta. Sinta como se ainda tivesse uma escolha. Se todos nós nos acendermos, podemos espantar a escuridão. Desejamos que nossos dias da semana passem logo, passamos os fins de semana na cama. Bebemos até ficarmos estúpidos e trabalhamos até morrermos. E tudo isso só porque foi assim que a mamãe e o papai disseram que tínhamos que fazer. Devíamos correr pela floresta. Devíamos nadar nas correntes. Devíamos rir, devíamos chorar. Devíamos amar, devíamos sonhar. Devíamos observar as estrelas e não apenas as telas. Você devia ouvir o que estou dizendo e saber o que significa. Cantar. Cante com toda sua voz. Ame sem medo no coração. Sinta! Sinta como se ainda tivesse uma escolha. Se todos nós nos acendermos. Podemos espantar a escuridão. Bem, queríamos ser mais felizes, mais magros e esbeltos. Queríamos não ser perdedores, mentirosos e desistentes. Queremos algo mais, não só sacanagem e amargura. Queremos algo real, não só “hashtags” e Twitter. É o significado da vida e está passando ao vivo no YouTube. Mas aposto que “Gangnam Style” ainda terá mais visualizações. Temos medo de nos afogar, voar e atiradores. Mas estamos todos morrendo lentamente na frente de computadores. Então cante, cante com toda sua voz. Oh, ame sem medo no coração. Você consegue sentir? Sinta como se ainda tivesse uma escolha. Se todos nós nos acendermos, podemos espantar a escuridão. Cante agora!

Passenger. 
Há exatos quinze dias eu experimentei meu primeiro cigarro. Nunca gostei do cheiro da fumaça mas eu estava decidida a fazer algo “incomum” na minha vida. Tudo bem, fumar é comum mas não pra mim que nunca sequer coloquei uma gosta de álcool na língua. Logo que dei a primeira tragada tossi tanto que achei que morreria de asfixia ali mesmo, jurei que nunca mais fumaria de novo. Percebi que você foi o meu cigarro: nunca tinha experimentado algo tão bom por tanto tempo, mas quando vi eu estava tossindo palavras não ditas, dias não procurados e amores perdidos. Hoje eu percebi que preciso distância de coisas assim e de novo estou jurando que nunca mais quero provar do teu amor novamente.

Metáfora do Cigarro
Queria realmente acreditar que é tão fácil como alguns textos dizem, mas não é. Cara, como eu queria dormir e acordar como se nada tivesse acontecido, como se você nunca tivesse batido na porta da minha vida. Porque se hoje eu me fecho pro mundo é porque um dia me abri pra você. Não te culpo, porque a culpa é única e exclusivamente minha. Não percebe? Eu deixei me ferir, deixei ser levado e não consegui voltar. E agora sou um bicho assustado. Não é medo do mundo e sim das pessoas que o habitam e dos sentimentos que nelas fazem morada. O que não é o meu caso. Eu amei mais do que pude e por isso transbordei, transbordei até que todos os sentimentos se foram e não encontraram mais o caminho de volta. Não me sobrou nada. Nem você e nenhum sentimento, apenas um enorme vazio. E o pior é que não me permito a outros sentimentos, mesmo que seja a felicidade. Porque já fui feliz e acredite, minha felicidade me mostrou o quão triste a perda dela pode ser.

Querido John    
Algum dia eu haveria de topar com ela, mesmo que passassem anos, mesmo aos beijos com outro. E se algum dia encontrasse Matilde com outro, mais que olhar Matilde eu olharia o outro, eu necessitava saber como era esse homem, para dar substância ao meu ciúme. Eu pensava nesse homem constantemente, muitas noites cheguei a sonhar com ele, mas ao despertar não conseguia lhe conferir forma humana. Nem ódio eu podia ter de um sujeito que não me ultrajou, não entrou em minha casa, não fumou meus charutos, não violentou minha mulher. E pouco a pouco me dispus a aceitá-lo, procurei imaginá-lo como uma alma delicada, como alguém que olharia Matilde na minha falta. Imaginava um homem que dirigisse a ela somente com palavras que nunca usei, que tivesse o cuidado de tocar a pele dela onde eu jamais tocava. Um homem que se deitasse com ela sem tomar meu lugar, um homem que se contentasse em ser o que eu não era. De tal modo que Matilde pensaria em mim sempre que olhasse em torno dele, e em sonhos nos visse os dois ao mesmo tempo, sem compreender quem era a sombra de quem. E ao despertar, talvez só se lembrasse vagamente de ter sonhado com o desenho das ondas em preto-e-branco, no mosaico da calçada de Copacabana. A calçada onde em tempos ela saltitava como se jogasse amarelinha, porque não podia pisar senão nas pedras brancas. E onde eu agora caminhava trôpego, traçando as pernas, pois apenas roçasse um pé nas pretas, cairia no inferno.

Chico Buarque. 
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